SENTIMENTOS DE CULPA
"Há um remédio para
toda culpa: reconhece-la."
Grillparzer
CAPÍTULO 87
- Você vai levantar? O bebê está quieto...!
- Não! É que...
"... não sei onde me encaixo nisso..."
Novamente a frase a atormentá-la.
Dana coloca as duas mãos tapando os ouvidos, nervosa.
Mulder a olha, espantado:
- O que foi que aconteceu, Scully? Você está perturbada!
Dana acha que deve tentar uma saída:
- Sabe, Mulder, toda mulher... uma em menor, outras em maior intensidade, sofrem com o puerpério.
- É... já ouvi falar, Scully.
- É que, nesse período crítico, após o parto, há crises, tanto emocionais quanto orgânicas e, às vezes... ahn... a recuperação é complicada...
- Eu entendo. É o que está se passando com você?
- É... eu... ahn... acho que sim. - diz, titubeante.
Dana não deseja falar claramente sobre a desagradável perturbação que Mulder lhe havia deixado cravado no coração.
- Pois vem cá. - ele a puxa, ternamente, fazendo-a deitar-se.
Mulder pega-lhe a mão, para que ela a coloque em seu peito e junto com ela repouse a cabeça, deixando os ruivos cabelos bem próximos ao seu rosto, a fim de que ele possa aspirar-lhe o perfume.
Mas Dana retira a mão de seu peito e não deseja atende-lo no gesto que ele gosta que ela faça ao deitarem-se.
Mulder faz um muxoxo:
- E você não sabe que, num grande estado emocional a tensão somente é tirada após um bom relaxamento?
- Nem sempre funciona assim.
Mulder suspira, desistindo de segurar-lhe a mão para que ela a coloque sobre seu peito.
Ambos estão calados.
Mulder quebra o silêncio.
- Scully...?
- Sim?
- Nos momentos em que a vejo triste, calada, sempre acontece de me vir à mente situações em que eu próprio me culpo, por suspeita de lhe haver causado alguma aflição e...
- Aflição?
- ... e esses sentimentos de culpa me fazem arrepender sempre.
- Como assim? Não entendi.
- São formas que tenho de me expressar, que me torna, em certas ocasiões, um sujeito muito grosseiro com você.
- Não sei o que está querendo dizer com isso. - endireita-se na cama, agora interessada em ouvi-lo.
- O que quero dizer é o seguinte: você estava me falando naquele dia sobre as palavras duras que lhe dirigi quando...
- ... quando...? - está ansiosa para ouvir o término da frase.
- Sim, quando retornei da... minha morte.
- E...? - acompanha com o olhar curioso o final de tais explicações.
- Você não gostou por eu ter brincado, perguntando "quem era você".
Um longo e profundo suspiro de alívio a fez chegar à conclusão de que Mulder não lhe estava comentando sobre a frase dela no seu apartamento naquele dia:
"Desculpe, Scully... é que não sei onde me encaixo..."
"Impossível seria - ela pensa - ele tocar justamente naquele assunto! Mas mesmo assim percebe que eu estou triste por alguma coisa que ele possa ter feito ou dito. Amo esse homem! Amo essa afinidade de sentimentos. Afinal, isso tudo é que nos uniu, nos fez sentir esse amor indestrutível um pelo outro..."
Um breve silêncio.
- Scully...?
- Ah, eu pensei que você já tivesse caído no sono.
Dana não quer perder a oportunidade para fazer uma pergunta, embora sentindo que nenhuma mágoa mais guarda contra o homem que tanto ama.
- E Mulder... sabe aquele dia em que o levei de volta ao seu apartamento?
- Sei... o que houve?
- Você falou-me: "Scully... desculpe... não quis ser frio ou injusto. É que não sei onde me encaixo nisso."
Ela dá uma risadinha forçada, somente para que ele acredite ela estar jogando a pergunta descontraidamente.
- Ah Scully, me perdoa! Imagine que eu havia recém saído das profundezas de uma cova... nada na minha cabeça se concatenava... eu estava confuso... ainda com muita perturbação... e eu a via ali, diante de mim com todo o esplendor de uma gravidez saudável... você, que era estéril... isso tudo me deixava sem entender em que mundo eu me encontrava... nada parecia real ou concreto pra mim, Scully.
Por segundos Dana continua quieta, sem mover um músculo.
Súbito, porém, vira-se para o lado, beija Mulder no pescoço com seus lábios úmidos, e repousa a cabeça e um dos braços no peito dele, como faz todas as noites.
- Vamos aquietar nosso coração, Mulder. Pra que pensar mais nessas coisas?
Sente um imenso alívio a banhar-lhe o cérebro e o coração. Está feliz. Esquece aquela frase que fôra, numa má hora, pronunciada por Mulder.
- Vamos dormir, Mulder e descansar nossa mente, hum? - sugere.
Um breve chorinho os faz ficar em alerta.
Calam-se. Escutam somente.
Porém fôra apenas um pequeno sinal do bebê de que ele está presente ali também e quer participar daquele ambiente de amor e paz.
Mulder afaga os cabelos de Dana, com a mão que está livre.
- Boa noite, Scully.
- Boa noite, Mulder.
"Não pode haver um bom
descanso sem prévia fadiga."
Mariano Aguiló