ROSTO APREENSIVO

 

Capítulo 303

 

“Um rosto formoso é um traidor

que se torna temível e se olha

com prazer.”

Plutarco

 

Ainda na soleira da porta Mulder já é abraçado pelos

filhos.

— Nem esperam o pai entrar...! — comenta Maggie

sorrindo.

— O que você trouxe pra mim, pai? — pergunta Vivien.

— O que você sempre pede, filha. — e entrega a ela um

pacote.

— Minhas revistas! — pula a garota, após olhar o

embrulho.

William somente levanta as sobrancelhas, com ar de

censura.

— E pra você também trouxe algo, filho. — entrega ao

menino um outro pacote.

Huum... vejamos... — ele fala, abrindo logo o

embrulho e retirando dele uma caixa — Isso! Isso!

É o que eu queria, pai!

— Bem que eu imaginei, filho. Você gosta disso.

— Minha mãe também vai adorar! — ele fala rindo,

pondo à mostra o possante microscópio.

— Onde está sua mãe? — o pai quer saber.

— Ah, acho que arrumando umas coisas lá dentro.

Mulder encaminha-se para o interior da casa.

Scully, reitero as palavras do Skinner.

— Ah, não! Verdade? Ele pensou bem sobre essa

proposta pra mim?

— E como! Daí fazer a proposta para a pessoa certa.

Você!

Ela larga as peças de roupa que está dobrando e

alguns passos, colocando as mãos na cintura:

Mulder, você bem sabe que acompanhei você

naquela última investigação simplesmente porque

não queria vê-lo afastado de mim.

— Afastado... de você...?! Se foi você mesma quem

me deu um ultimatum com uma decisão pra lá de ...

— Por favor, — fala em baixa voz —  não lembre

isso...!

. — caminha até ela — Scully preciso de você

nesse caso.

Por que?

— Porque é importante!— passa a mão nos

cabelos desalinhados — Um cientista maluco

criou sabe o quê? Uma máquina estranha que

pode levar a acontecimentos fantásticos.

— Fantásticos...? O que está querendo dizer? Que

idiotice é essa desse cara?

— Não subestime as idéias de um cientista, Scully.

O FBI quer nossa ajuda porque sabe que...

— ... que um caso assim o fascina, Mulder.

Ele sorri:

— Com certeza, lindinha.

Mulder eu... — ela se afasta dele —  vou pensar.

Ele a segura pelos ombros:

— Por favor, lindinha. Preciso de você.

Ela o fita com expressão de censura:

— Já disse que vou pensar sobre o assunto.

— Ta ok. — ele se joga na cama, fechando os

olhos — Eu aguardo e aviso o Skinner.

Dana chega até ele e dá um rápido beijo nos seus

lábios. Sai do quarto.

William e Vivien entram neste momento e enquanto

a menina se joga na cama junto do pai o menino

senta-se ao seu lado.

— Pai, a mãe disse que teve um horrível pesadelo

com um alienígena.

— É, filho, estou sabendo disso.

— E a gente tava no sonho dela, pai! — diz a menina.

Mulder sorri, vendo o rosto apreensivo da filha.

— Foi só um pesadelo, filha. Só isso.

— O que é um pesadelo?

— É uma agitação ou opressão durante o sono, em

resultado de sonhos aflitivos.

Ahn...? — admira-se a menina, sem entender.

— Essa resposta é muito complicada pra ela,

que tem o cérebro limitado, pai. — o menino adianta

— Olha, Vivien, pesadelo é um sonho mau! Deu pra

entender?

Brrr... que medo! — exclama a garota.

Mulder dá uma risada pela desenvoltura do filho.

 

*   *   *

 

Dana, sob o chuveiro, medita:

“Nossa! No sonho horrível que tive também o

Skinner queria que eu ajudasse o Mulder. Será que

devo aceitar essa sua proposta? Lembro que naquela

última investigação só tivemos paz depois que

descansamos naquela ilha. Naquela ocasião

aconteceram fatos que nos desentenderam e muito!

Não, não quero pensar nisso! Mas não sei o que

faço... não quero ir... mas ao mesmo tempo quero

estar ao lado de Mulder.”

Ela sai do banheiro, enxugando os longos cabelos.

O ruído da chamada do telefone ecoa no ambiente

próximo.

— Dana, você pode atender? — grita Maggie  

Estou ocupada, filha!

— Pode deixar, mãe!

Dana tira o fone da base:

— Alô!

Scully...? Dana Scully?

— Sim...? — reconhece logo a voz — Senhor Skinner!

 

*   *   *

 

Mulder, sentado em seu gabinete de trabalho, movimenta

um maço de papéis, nervosamente. Detém-se em um

que tem às mãos.

A porta é aberta neste instante, fazendo um discreto

ruído.

O Agente, embora ouvindo o ruído da porta,

continua concentrado nos papéis que tem às mãos.

— Tudo bem? — a voz suave o faz voltar-se.

Scully!! — murmura com olhos brilhantes,

levantando-se subitamente.

Abraçam-se com ardor.

— Fui chamada para vir hoje pra cá. É isso mesmo,

Mulder?

— Exato. Vamos ao trabalho hoje. — confirma,

beijando-a nos lábios.

Ela suspira aliviada:

— Ai, certo; o trabalho não deveria me atrair

tanto, mas é que vou estar junto de você.

— Sim, Scully. — ele a aperta entre os braços,

sacudindo-a um pouco, carinhosamente.

 

*   *   *

 

 

Dana o segue, atenta.

Mulder, em seus passos largos e decididos, caminha

olhando para a frente.

— Vamos, Scully. Mais rápido!

— E daí, Mulder? Por que estamos indo para uma

avenida tão importante nesta cidade?

— Por foi lá que os dois cientistas desapareceram.

— E como desapareceram?

— Um cientista um tanto...

Mulder interrompe sua explicação. Haviam acabado

de chegar ao prédio que buscavam.

O ambiente em que estão no momento é

extremamente frio. Painéis, luzes coloridas e

brancas piscam ininterruptamente, botões,

teclas, uma infinidade de aparelhos demonstram a

intensidade da tecnologia usada na sala.

O homem de jaleco amarelo à frente de um

enorme painel parece concentrado.

— Senhor...?

O homem se volta para olhar os recém-chegados.

— Professor Janssen.

— Agentes Mulder e Scully do FBI.

Ele apenas finge um sorriso e acena com a cabeça.

Os Agentes se entreolham notando o aspecto mal

cuidado e os cabelos desarrumados do homem.

Mulder se aproxima dele:

— Podemos falar-lhe um instante?

— Um instante até que permito, senhores. — e

lança um sorriso enigmático.

Ahn... senhor... Professor Janssen,  estamos aqui

por causa do desaparecimento de seus dois colegas.

— inicia Dana.

O cientista se senta numa das cadeiras inteiramente

brancas que circundam o ambiente. Leva as mãos à

cabeça e deixa os cotovelos se apoiarem nos joelhos.

Os Agentes também se sentam observando o estado

um tanto preocupado do homem.

— Como aconteceu? — inicia Mulder.

— Eles desapareceram em apenas alguns

segundos! Foi estarrecedor!! — balança a cabeça e

franze os lábios.

— E onde aconteceu isso, Professor? — indaga a

Agente.

O cientista a olha, com ar admirado:

— Então não lhe contaram? Foi aqui!

— Aqui?! — Mulder olha ao redor — Aqui... onde?

— Dentro da máquina, claro!

Dana levanta o olhar cético e crítico, juntando os lábios.

Mulder chega mais perto do homem:

— Como disse? Qual máquina, Professor...?

— Esta aqui mesmo, a qual estamos â  frente.

O Agente levanta as sobrancelhas:

— Essa máquina é ...?

O cientista se levanta para explicar com empolgação:

— Levei anos sacrificados da minha vida, desisti

de uma porção de projetos importantes,

negligenciei as atenções com minha família, tudo

para criar essa fantástica invenção e agora... e agora...

— O que faz essa máquina, Professor...? — quer saber

Dana.

— Ela é um portal dimensional! E os meus dois

amigos que desapareceram são ufólogos.

Neste exato momento do esclarecimento do

cientista Dana presta atenção na

expressão de deslumbramento de Mulder.

 

Não se magoe com as críticas, mas não

 se deixe deslumbrar com os elogios.”