ENCRENCADO COM A LEI

 

“Nenhuma lei é boa se não está

baseada nas leis da natureza”.

B. Saint-Pierre

 

Capítulo 292

 

Mulder e Scully haviam se afastado do local nas areias da praia.

O homem louro já não mais tentara convencê-los a conversar com ele. Resolve, então, sair dali.

As pessoas que haviam presenciado a cena da detenção do ladrão pelo ex-agente do FBI, aos poucos foram se afastando do lugar.

Mulder, o que achou daquele estranho sujeito?

— Nem sei dizer, Scully, mas que é um sujeito encrencado com a lei, não tenha dúvida.

— Por que acha isso?

—Ora, fazendo de tudo pra não encarar a lei, o que pode ser?

Antipatia, simplesmente?

Dana esboça um leve sorriso.

Os dois caminham em direção à pista que margeia as areias da praia.

A brisa que sopra no momento faz balançar as palhas das palmeiras muito altas que se enfileiram em um dos lados da pista, assim como os cabelos de Dana esvoaçam levados pelo leve vento.

Num dado momento Mulder toma Scully nos braços, pegando-a de surpresa.

Pára, Mulder!  Tem gente por aqui nos olhando!

— E daí?  Que olhem! O que tem isso? Nos amamos. É o que importa.

Ela sorri e coloca os braços para envolver o pescoço do amado.

 

* * *

O homem maneja o volante do carro observando, atentamente o trânsito à frente. Ele mastiga avidamente um chiclete, tentando assim conter sua ansiedade.

Num dado momento o trânsito torna-se complicado. O homem louro irrita-se. Acaba de perder de vista seu alvo. E dá socos no volante à sua frente.

— Mas que droga! — xinga ele.

Sem conseguir melhor ângulo para o que deseja, emite urros de raiva. Conduz o veículo em completa irresponsabilidade, pois corta a frente dos veículos, com perigo de abalroamento nos outros carros que trafegam próximo ao seu.

Após várias peripécias no trânsito, consegue enfim divisar a alguns metros à frente o que deseja seguir.

Agora o homem está novamente satisfeito. Um sorriso malicioso desenha-se nos seus lábios. E ele prossegue no seu intento.

 

* * *

Mulder faz um último retoque na barba que havia acabado de tirar.

Scully!! — chama.

Fala, Mulder!

— Estou indo agora comprar o negócio.

Dana aproxima-se:

— Que negócio?!

— Você não quer que compre o sorvete?

— Ah, é verdade; tudo bem.

Mulder volta-se para ela; puxa-a para si:

— Não demoro, lindinha.

— Espero que não. — ela diz, fitando-o; faz uma pausa enquanto está sendo presa nos braços dele.

— Estou doidinho pra...

— ... pra...?

—Hum... você sabe.

—Sei...?

Ele dá uma risada, jogando a cabeça para trás:

— É. Você também .

— Também...? Como sabe?

— Adivinho.

Mulder solta Scully de seus braços e sai do lugar, no seu passo pesado; volta-se para olhá-la:

— Não fica ansiosa, porque volto já.

Dana sorri levemente.

Ele dirige-se à porta de saída. Lá fora entra no carro. Liga o motor do veículo, que sai do lugar, vagarosamente.

* * *

 Dana sai do quarto, enrolando os longos e ruivos cabelos num coque. Enfia as pontas num frouxo nó e os deixa assim.

Na pequena e prática cozinha ela enche um copo com água, retirando-a na porta da geladeira. E bebe a água aos poucos.

Num repente sente algo às suas costas.

— O quê...? — exclama, espantada.

— Oi. — o homem que havia causado o susto nela a cumprimenta.

Ei! !O que faz aqui?Como conseguiu ...?

— Achar seu endereço?— levanta a mão, num gesto apaziguador — Deixa eu explicar...

— Por favor... sai daqui.

— Mas o que é isso? Estou precisando de ajuda! — apela o homem.

— Que tipo de ajuda?

O homem suspira antes de falar:

— Eu sei que você é médica.

Como ...?! Como soube?

— Me informei, é claro.

— Dana o olha com incredulidade; cruza os braços:

— O que pretende, afinal?

O homem vê a cadeira que está encostada a uma mesa e dela se aproxima e senta.

— Preciso de sua ajuda, doutora.

— Não me disse ainda em quê! Eu não atendo clientes a domicílio. — vai até uma estante e de uma pequena caixa pega um cartão, que o entrega ao homem, que está ainda sentado.

— Que quer dizer com isso?

—O endereço do hospital onde trabalhei. Lá tem médicos de todas as especialidades.

O homem levanta-se:

— Você não entendeu; eu não quero ir a nenhum hospital.

Dana dá alguns passos para trás; franze as sobrancelhas.

Tsc, tsc, tsc você me desculpa, por favor se a faço me tomar por um invasor.

— É justamente o que me está parecendo!

— Calma! — ele pede, com um gesto — Eu preciso mesmo de ajuda.

— Mas já lhe informei que não atendo ninguém em casa! — ela replica.

Olha, eu não quero forçá-la a isso. Jamais foi essa minha intenção, mas eu lhe peço que me ajude! Mas estou entendendo; você sente-se um pouco assustada, porque viu aquele lance lá na praia.

— E o achamos bem estranho!

— É. Tem razão. Mas na verdade não queria mesmo que o tal ladrão que ia levando minha pasta tivesse que me fazer ir até uma delegacia.

Dana continua em atitude de alerta. Não consegue entender qual o sentido daquele sujeito ir até a pousada onde está com Mulder, procurando tranqüilidade. Ambos precisam disso.

— Algo o faz temer a justiça?

O homem fita-a agora com ar ameaçador:

Ei  Olha só como fala comigo! Não gostei de sua insinuação! — em questão de segundos ele modifica seu ar irritado e continua — O meu nome é Ralph. Ralph Burton.

— Pois então, senhor Burton, fale logo o que deseja.

O homem levanta-se. Dá alguns passos.

— Não é fácil falar.

Dana demonstra estar perdendo a paciência:

— Senhor Burton, vamos então ao assunto que o trouxe até aqui.

— Bem, doutora Scully, eu temo não ter muito tempo de vida.

Ela franze os lábios num bico, observando-o.

— Sofro de uma doença degenerativa que me causa transtornos de forma um tanto...

A frase é interrompida porque no limiar da porta a figura imponente de Mulder surge.

Burton levanta as sobrancelhas, surpreso.

Dana interiormente sente-se aliviada. Nem sabe bem o porquê. Parece-lhe que o mal quer atormentar o bem estar seu e do seu amado.

 

“O bem custa    muito  a conquistar,

mas o mal está ao alcance de toda a

gente.”

Demócrito