NÃO TEM COMO NÃO OBEDECER
“Ninguém deve
obedecer a quem
não tem o direito de mandar.”
Cícero
Capítulo 280
PRIMEIRA PARTE
Num dado momento, enquanto pára por
alguns minutos para descansar,
apoiando-se num
tronco de árvore, Dana vê William esticando o máximo
sua mãozinha,
tentando alcançar algo.
-
O que você quer?- ela pergunta.
Ele se esforça mais ainda, nos braços
dela e estende a mão espalmada.
-
Não!! – ela grita, assustada, quando olha para o alto.
William faz beicinho, com ar de choro,
quando Dana pode ver o que
o menino
queria alcançar a retorcer-se
lentamente, enrolando-se em seguida
no galho onde
estivera pendurada.
- Uma
serpente!! Oh, meu Deus! – ela segura ambas as mãos do filho
–Pelo amor
de Deus, William, não tente mais fazer isso! É um bicho
ruim!
A criança chora,
assustada. Esconde o rosto no ombro de sua mãe.
Dana retorna à caminhada. O cansaço é
cada vez maior. A essa hora o sol
ainda está a
pino, banhando a floresta.
Algum tempo se passa e ela continua
andando, sentindo que alguma coisa
não está normal
no seu corpo, pela grande desânimo que a domina.
-
Mãe, eu qué água!
Ela sente uma dor a lhe tocar o coração.
Como deixar com sede uma criança
e não poder
lhe dar o que precisa?
-
Espera só um pouquinho, tá filho? Logo vamos chegar.
-Tá. – ele diz e novamente recosta a cabeça no ombro de sua
mãe.
-
Oi!!
Dana ouve,
então a saudação em alta voz. Volta-se, repentinamente,
para ver de onde
partira.
-
Você...?!
-
E aí, gatinha ruiva... pra onde pensa que tá indo?
Ela fica estática.
William desperta,
levantando a cabeça do ombro da mãe.
- Olha, por
favor, - ela arrisca a falar – me deixa ir embora! Se fizer
isso eu nada
direi à Polícia!
- E quem tem
medo da Polícia?! Eu?! Ah! Ah! Ah! Nem pense,
gatinha! Mas espera
aí... como foi que conseguiu sair? E minha irmã...?
- Ela... ela... – gagueja Dana - ... ela tinha saído.
- Ah...! É uma besta mesmo! –
vocifera ele – Mas olha aqui... já que
desistiram de... – faz
com a mão passando na própria garganta,
uma gesto que
significa cortar a garganta - ... sabe como é, né? Então
vou aproveitar e
fazer uma farrinha com você, gatinha...!
Dana arregala os olhos, apavorada.
-
Deixa a gente em paz! Só quero ir pra minha casa!
-
Ah, sei, gatinha! Você acha que sou um cara bonzinho assim?
-
Está completamente louco!
Ele, imediatamente, dá alguns passos em
direção à Dana, que,
impossibilitada de correr,
pelo cansaço em que se encontra, é fácil presa
nas garras do
sujeito.
- Não faz
isso, pelo amor de Deuis! Olha o meu filho! É apenas
uma
criança! Por favor!
–ela suplica.
- Não seja
tola... vamos lá!
- Não! Eu
não vou mais conseguir ir a pé até aquele lugar!
O homem a olha, por instantes.
-Vamos lá, ó
dona! Deixa de fricotes! Que que é que tá querendo?
Anda logo!!- ele berra.
William desata a chorar, assustado.
-
Meu filho está ficando doente! Pelo amor de Deus nos deixa ir
embora!
-
Não, sem antes a gente fazer uma farrinha...!
-
Não tenho a menor dúvida, agora. Você é completamente louco!
-
Louco ou não, anda! Vamos voltar!
Diante da exasperação do sujeito e suas
ameaças, ela não tem como não
obedecer.
Caminham os três agora, em direção ao
casebre do qual Dana e William
haviam escapado.
- E sabe de
uma coisa?- ele recomeça –Você tem muito boa intuição.
Se não tivesse vindo por este caminho, deste
lado, nunca teria chegado
até aqui, porque há um grande pântano perigosíssimo
pros lados de lá!
E dele
ninguém consegue escapar!
Diante dessa explicação do homem, Dana
concentra-se e pega a cruz que
carrega no cordão
em seu pescoço e faz uma oração ao Senhor, agradecendo
de certa forma
Ele ter levado seu filho, tão pequeno, a ensinar-lhe a direção
certa a tomar
naquela densa mata.
*
* *
Finalmente a casa surge diante de seus
olhos. Ao entrar ali, Dana, com pernas
trôpegas, deixa-se
cair no chão, neste momento.
-
Mãe!! – grita William, abraçando-se com a mãe caída ao chão.
O homem está parado, olhando-a caída.
Segura a própria cabeça,
empalidecendo.
-Mãe!!
– continua gritando William.
Dana levanta-se, com esforço.
O seqüestrador continua parado,
encostando-se num dos cantos do pequeno
ambiente muito
escurecido. Agora segura um dos braços, apalpando-o de
cima a baixo.
-
Ahn...! – geme ele, segurando a cabeça com as duas
mãos.
William ajuda a sua mãe como pode, para
vê-la completamente de pé.
Dana vê o homem empalidecido diante
deles. Firma o corpo em seguida e
segurando a mão do
filho, encosta-se junto da parede.
O homem continua na mesma
posição, gemendo, enquanto segura a cabeça.
A Agente o observa, tentando entender o
que se passa.
- Ai...! –
geme o homem - Puxa
vida, eu queria me divertir um pouco,
mas... – sem terminar
a frase ele sai, em passos rápidos, mas incertos,
em direção da
porta.
Dana escuta o som desagradável de vômito
lá fora.
Ela segura seu filho, temerosa.
-
Ele foi bóra? – indaga o menino.
-
Acho que não; ele está doente.
Passados alguns instantes o seqüestrador
retorna.
-
Tô mal! – queixa-se.
Ele senta-se no chão; encosta-se na
parede, revirando os olhos.
-
O que está sentindo? – a Agente pergunta.
-
Muita febre, muita febre! – queixa-se ele –Não sei que
troço é esse.
-
Está me parecendo um quadro de abcesso cerebral.
-
O quêeee...?! – ele surpreende-se, tentando abrir os
olhos - Por quê
tá
falando isso?
-
Por causa dos seus sintomas.
-
E o que você sabe, ô ruiva? Que pensa que tá falando? Quer me
assustar, é?
-
Sou médica.
Essa afirmativa o seqüestrador recebe
como um impacto no peito.
-
O que é isso? Que doença é essa que eu tenho? Como você sabe?
-
Já lhe disse; pelos sintomas que está aprsentando.
Ele volta agora a apalpar o braço e a
movimentar, flexionando, uma perna.
-
Está sendindo dormência?
-
É isso. – ele responde, com olhar raivoso.
- Vou lhe
avisar uma coisa: se não procurar um hospital logo, vai ter
problemas graves.
O seqüestrador, fazendo esforço,
levanta-se, irado:
- E aí, doutora, estou mesmo com esse negócio aí, é? Ta bom, mas vou
ter que amarrar você
assim mesmo, tá, doutora?
- Você deve
procurar socorro... – ela prossegue – ...alguma vez já
sofreu
ferimento no crânio?
Ele leva, novamente, as mãos à cabeça:
-
Sim, já. Quase morri!
Mesmo trôpego, o sujeito pega uma corda
e dirige-se até onde está Dana.
- É isso aí,
gatinha ruiva. Tenho que lhe prender! Mas você está com
sorte! -= fala, dando
ênfase à última palavra.
- Por que
fala isso?
- Porque ela
não quer mais que te mate, sabia?- dá uma risada
forçada – Ficou boazinha...!
- Ela, quem?
– agora Dana é tomada pela curiosidade.
- Ah, não
pergunta nada! Fica quieta!
E o homem aproveita-se da grande
fragilidade na qual se encontra Dana
e amarra-lhe
os pés.
-
Você está com uma febre altíssima! Talvez uns trinta e nove graus.
- - ela fala, após sentir a quentura que vêm das mãos dele.
O homem nada argumenta.
-
Não vai me dizer quem é essa mulher? – Dana insiste.
Ele faz uma careta de dor; levanta o
corpo curvado e leva as mãos à cabeça,
novamente.
-
Que dor...!!
- Você pode
até se recuperar desse abcesso cerebral, porém pode advir
uma epilepsia. –
prognostica ela.
Pára
com essa história, dona! Eu não tenho nada disso! É só um
simples...
Ele não termina a frase, pois começa a
tremer, como que iniciando uma
convulsão.
SEGUNDA PARTE
Em dado momento, ali na penumbra em que está o
interior do casebre, ele
pode divisar próximo à janela a irmã caída
no chão de terra batida.
- M... mas o que que é isso?! O que
aconteceu com ela? – ele berra,
aproximando-se rápido,
para examinar a irmã e vê que ela está
sangrando na fronte – Mataram minha irmã!! – volta-se
para Dana
–
Ei!! Você que é médica, dá uma olhada nela!
- Não posso. – ela diz, simplesmente.
O homem levanta-se, bruscamente, irado:
- Não
pode, por quê?
- Você
me amarrou os pés, esqueceu?
- Ah! – o homem exclama e sem titubear,
chega até ela, toma-a nos
braços para carregá-la até a irmã caída.
De súbito, solta a Agente, queixando-se de dor.
Dana o olha de soslaio, pára falar em seguida:
- Já
disse que precisa de socorro.
- Chega
de seus diagnósticos estúpidos, tá? – reclama em voz
ofegante,
apesar de irado – Você não entende de nada!
Dana franze os lábios.
- Minha irmã está ali, caída e eu assim,
doente! Droga!! – berra – Que
azar essa cara nos
arranjou!
- Essa
cara...?! – balbucia Dana.
O homem, ainda com as feições contraídas pela dor,
joga, nesse instante, um
olhar cheio de ódio para Dana.
- Foi
você!!
- Eu o
quê...?!
- Matou
minha irmã!! – berra.
- Não
seja tolo. Eu tinha fugido enquanto ela havia saído.
O seqüestrador a olha, desconfiado, tentando acreditar
na justificativa.
Novamente ele geme, levando as mãos à cabeça.
Dana aproveita para perguntar:
- É uma
mulher que está comandando este seqüestro?
- O que
você acha? – ele responde e logo se volta para ela –Anda!!
Vê
aí o estado da minha irmã.
Dana agacha-se e toma o pulso da mulher.
- Ela
está apenas desmaiada. – informa, levantando-se; no fundo
torcendo para que a mulher não recobre a consciência,
senão tudo ficaria
complicado para ela e sua criança; e tendo certeza de que a
resposta
sarcástica dele havia confirmado que a mandando do crime
fora uma
mulher, volta a
perguntar – - Essa mulher conhece a
minha família?
- Fica na sua aí, dona! Não vou falar
nada! – depois de levar as mãos à
cabeça, apertando-a, ele dobra os joelhos e cai no chão.
Dana, apesar de estar com os pés amarrados, tenta
colocar-se em pé, sem
conseguir, no entanto.
William, diante dessa cena dramática, começa a chorar
copiosamente e, com as
mãozinhas ansiosas, tenta, inútil e ingenuamente,
desatar os nós que prendem os
pés de sua mãe.
Dana compadece-se de sua criança. Aconchega-o contra
seu corpo, com o coração
transbordante de amor. Aos poucos, sentindo o calor do corpo de sua
mãe,
William vai cessando o choro convulsivo.
Ela agradece a Deus, intimamente, poder estar com vida
e ver o estado miserável
no qual se encontram os seqüestradores
malvados, capazes de fazer mal a uma
inocente criança, nos seus perversos instintos.
O homem continua ajoelhado no chão, segurando a
cabeça, sentindo-se atordoado.
Uma pancada na frágil porta podem ouvir nesse
instante.
Dana assusta-se. Ouve passos esmagando as folhas secas
lá fora.
Agora o seqüestrador também nota que alguém parado
diante da porta do lado
de fora está com o intuito de derrubá-la a
qualquer instante.
No primeiro impacto, ao ver desabar a porta os três
ali dentro da casa se assustam,
grandemente. Segundos após podem ver policiais e Mulder, que entra ansioso e
perturbado no obscuro ambiente.
- Papai!! – grita William.
- Mulder!! – exclama Dana.
Ele junta-se aos dois.
-
Dana... meu filho...!! – exclama Mulder,
com voz embargada.
Dana chora; deixa que as lágrimas rolem pelo seu
rosto, livremente.
Mulder lhe beija a testa; beija
o filho nos cabelos várias vezes seguidas.
- Papai
está aqui, filho! Ninguém mais vai fazer mal a você e à sua mamãe.
O menino segura com as duas mãozinhas o rosto do pai,
com olhar agradecido.
O pai o aperta, colocando-o ao colo e ainda com o
filho nos braços, abaixa-se
para desatar os nós da corda que prende os
pés de sua mulher. Solta-a dessa
corda que a impedem de caminhar e aperta-a
contra seu corpo, ansiosamente,
mesmo com seu filho nos braços.
Permanecem os três assim, abraçados, em extrema
emoção.
Os policiais, após segundos concentrados a verem a
emoção da pequena família,
agarram o seqüestrador, que ainda se encontra
ajoelhado, segurando a cabeça,
gemendo de dor.
- Por
favor, me ajude...! – pede ele ao policial que o está algemando.
-
Levem-no! – ordena o Delegado.
Outros dois policiais carregam a mulher que estava no chão, desmaiada.
- Mulder... e Vivien?
–pergunta Dana.
- Na
medida do possível, ela está bem.
- E a
alimentação dela, Mulder?
- Sua
mãe tem pegado leite diariamente no Banco de Leite.
Ele a aconchega para si, acarinhando-a, segurando-a
pelos longos cabelos ruivos.
-
Pronto, acabou! Tudo ficará em paz, agora!
* * *
Já no carro, Mulder examina
a mão de William.
- Que é
isso, Scully? Parece um hematoma!
- Não, é
apenas tinta!
- Ahn!-ele sorri, brandamente e beija a mãozinha do filho.
Com carinho
acomoda-o no banco
traseiro do veículo. Em seguida entra na porta
dianteira; pega o
volante.
Dana, no lado do carona o aguarda. E vendo que no
mesmo instante a criança
está fechando os olhos, sonolenta, inicia
com Mulder uma conversa sobre algo
que a deixara intrigada horas antes.
- Mulder, aconteceu algo que me deixou perplexa. – começa
ela.
- O quê?
- Lá,
naquela cabana, nosso filho agiu de um modo um tanto adulto,
quando eu estava
precisando de algo para cortar as cordas que me prendiam.
- Sim...?
- E depois... naquela
mata, também uma coisa estranha
aconteceu. Mulder...
Nosso filho tem poderes,
aliás, esse acontecimento somente veio confirmar
coisas estranhas que já aconteceram há tempos atrás.
- Entendo, Scully... entendo... mas continue.
- Lá, naquela mata, ele me deu a
impressão de que estava entendendo o que
um animal lhe
transmitia... de algum modo, ensinando-nos a sair da
floresta.
Ele somente anuiu, balançando a cabeça, porém nada
comentando.
TERCEIRA PARTE
Maggie, abraçada à filha, deixa o choro sair
de seu peito com a força que o pranto
lhe escapa do fundo de seu ser
Dana, por sua vez, além de abatida pelo sofrimento,
sente a emoção de estar de volta
ao lar.
-
Mamãe... e a minha filhinha... como
está?
- Bem,
querida, ela está bem, na medida do possível!
Dana sai em passos rápidos, em direção ao quarto para
ver a filha.
Maggie a segue.
A pequenina dorme, tranqüila.
- Mamãe,
eu quase não estou resistindo, mas somente daqui a pouco eu a
posso tirar do
berço. – fala, chorando – Tenho que tomar um banho, banhar
William também....
- Deixe
que eu dou banho nele, Dana. Pode tomar o seu e se
cuidar, enquanto
eu faço isso.
O menino, que as havia acompanhado até o quarto, logo
diz:
- Na
nossa tasa tem cumida, num
tem, vó?
- Meu
Deus, por que pergunta isso...?! – quer saber Maggie.
- Puquê, sabe vó, lá natela tasa, aquele home mau só dava biscôto... só um
pôquinho...!
- Ai,
que maldade!! – ela abraça-o aflita –Meu queridinho,
nunca mais
lembre desse homem
ruim, viu? Nunca mais!
- Mas tinha a mulhé
também! – completa ele.
A avó o abraça, ainda, sentindo-se
arrasada, como se trouxesse um peso
por fazer parte
deste mundo onde seres humanos são desprovidos de
consciência.
* * *
Maggie olha ternamente Mulder,
que envolve com um braço os ombros de
Dana, enquanto William está em seu colo. Vivien está nos braços de sua mãe.
- Que cena linda! – ela comenta,
dirigindo-se a eles; morde os lábios, como
que vacilando em fazer a pergunta que lhe quer sair da
garganta.
- Fox...?
- Sim, senhora Scully?
- Eu queria saber como... como você ficou sabendo que foi aquela criatura
quem deu as ordens para esse seqüestro... essa
tremenda maldade.
- Um sonho... – ele responde, num ar
absorto.
- Um sonho, Fox...?
- Sim, eu via uma figura disforme que me
ameaçava e à minha família, com
palavras de ódio. A
pessoa eu não podia ver bem, mas o seu olhar...
- O que tinha esse olhar, Mulder? Algo aterrorizante?- quer saber Dana.
Ele aperta os lábios para dizer:
- Ao
contrário; extremamente terno...
- ... como o daquela fulana... aquela maligna vizinha,
não é, Mulder? –
-
completa Dana.
Ele dá uma risadinha:
- Você
acaba de matar a charada, Scully.
Maggie ergue o corpo e, num gesto de espanto,
fala:
- Ela...?!
Aquela mulher? Eram os olhos dela?!
-
Exatamente.
- E eu
apenas citei a criatura porque vi, em certas ocasiões, como ela o
olhava!- - confirma Dana.
-
Perversa criatura...cheia de crueldade...! – resmunga
ele, entre dentes.
“A covardia é mãe da crueldade.”
Montaigne