"A maior das ilusões chama-se realidade."
Paul Gibier
Capítulo 218
Ambos cessam a conversa.
Longos minutos se passam antes que a reiniciem.
- Queria lhe perguntar uma coisa - ele recomeça.
- Pois não...
- Quer mesmo ir para algum lugar?
- Sim. Estou achando você muito interessante.
- É mesmo? - ele sorri.
- Você é casado?
- E você?
- Não me respondeu.
- Nem você tampouco.
Ele dirige o carro, de olhar fixo na pista asfaltada.
- Eu sou noiva. - ela responde, sem olha-lo.
- Ah, noiva...!
- Sim. Mas ainda não decidimos quando será o casamento.
- Talvez haja uma esperança...!
- O quê?! - ela dá um pinote no assento do carro - O que disse?!
- Desculpe, não falei isso com má intenção!
- Não... eu sei... mas é que essa frase eu ouvi...
- De alguém...?
- Sim, mas não na realidade! - fala, pensativa, com voz murmurante.
- Fora da realidade? Como é isso? - ele espanta-se.
- Nas filmagens... - ela explica, com o olhar perdido nos pensamentos
- Ah, agora entendo! Uma atriz fica com a mente completamente absorvida pelos papéis que desempenha. É isso?
- Mais ou menos.
- Bem, desculpe as coisas que lhe falo, tá? Esqueça. - ele fica em silêncio por alguns minutos; examina, com o olhar, todo o corpo dela ao seu lado, descendo a vista para suas pernas bem torneadas; dá um leve sorriso - Só mesmo por curiosidade quero lhe perguntar: você sabe dirigir?
- Sim.
- Seu carro tem assentos especiais, não?
- Especiais? Que quer dizer?
- Ah, desculpe... - sorri - ... é que acho que seus pés não alcançam os pedais.
Neste momento Gillian fica atordoada.
- Meu Deus! O que é isso? O que está acontecendo?
Mulder reduz a velocidade.
- Houve alguma coisa? - pergunta preocupado.
- Sim! Está havendo e não estou entendendo mais nada! - veste, rapidamente o casaco que havia retirado.
- Está nervosa ou com frio?
- Ambas as coisas.
Os dois vêem o limpa vidros do para-brisa funcionando em seu ritmo incessante, retirando de sobre a sua superfície a gélida chuva que começara a cair e que lhes embaça a visão.
Ela abraça com força o próprio corpo.
Agora ele volta para ela o olhar, enquanto param num sinal de trânsito.
- Uma vez me disseram que a melhor forma de se recuperar o calor do corpo é entrar num saco de dormir com outra pessoa que esteja nua.
Gillian permanece muda. Sente-se quase em pânico. Por alguns segundos pensa estar em outra dimensão.
- Não é pos - sí - vel!! - balbucia e rapidamente retruca a frase decorada há tempos atrás - Se chover sacos de dormir, talvez você tenha sorte. - continua olhando-o fixamente, sem sorrir.
Ele dá uma risada.
- Não é necessário. Aqui no carro é bastante confortável! - fita-a ardentemente.
- Eu jamais imaginei...
- Imaginou o quê?
- Encontrar você.
- E o que achou de mim?
- Um sujeito... fantástico! - murmura num semblante que aparenta estar em transe.
- Ooooh! - ele fala, fazendo troça - Estou super sensibilizado com suas palavras!
- Não estou achando nada engraçado! Estou achando que tudo isso é muito... irreal!
- Irreal?! O quê? Quem? Eu?
- Sim... você.
- Quer uma prova de que sou bem real?
É ela, agora então, que toca no peito dele, com as pontas dos dedos. Sente-lhe também no queixo os discretos tocos de barba aparecendo sob a pele morena.
- O que acha? - ele quer saber.
- Eu o estou sentindo...
- Claro! Não sou um fantasma!
- Desculpe.
- Vou provar-lhe que existo.
Ela recosta-se bem rente ao banco do carro, aparentando extremo nervosismo.
- Olhe pra isso. - ele pede.
- O quê?
Ele aperta um botão no painel.
- Pra que serve?
- Olhe bem para o para-brisa traseiro.
Gillian nota que um vidro estrategicamente instalado, está subindo e cobrindo o outro já ali existente.
- Esse vidro que subiu ali tem insulfilme. Dessa maneira olhares curiosos não podem apreciar nada do que se passa aqui dentro. - ele explica.
- É mesmo?! Que loucura! - ela ri, estupefata.
Mulder, neste momento, está parando o carro em mais um sinal fechado.
Aproxima o corpo do dela. Está falando bem próximo ao seu rosto.
- Quero lhe provar que sou bem real... um homem excitado, apenas.
Ela entreabre os lábios, vendo que ele lhe procura a boca.
E o beijo trocado eleva-os aos píncaros do prazer. As línguas se tocando, procurando uma a outra, a saliva passando de uma para outra boca, os sentidos chegando ao máximo da excitação, as carnes vibrando pela sensualidade dessa aproximação.
- Mulder... - ela balbucia, entre beijos - ... eu quero ser a sua Scully...!
- Hãn?!
Mulder afasta-se de Gillian. Aperta os olhos, surpreso com a frase dela.
E a linda Gillian, como se estivesse postada numa nuvem, como uma etérea figura, vai dispersando-se de sua visão.
Ele abre os olhos. Tudo escuro ao seu redor. Mas está deitado. Em uma cama de casal. Estende um braço para o lado. Sente que está tocando em alguém. Sim! A sua Scully.
Ele senta-se na cama. Distende os lábios, num sorriso.
"Que engraçado! - pensa - Esse sonho que tive foi bem divertido e ..."
Dana move-se no seu lugar.
- Scully...? - chama, baixinho.
Ela o olha, sonolenta, despertando.
- Eu tive um sonho, Scully...
- É?
- Sim, - prende-a, docemente, entre seus braços - e estou excitado.
- Sonhou com alguma mulher, Mulder? É isso?
- Sim. Uma mulher que queria ser você.
- Huuum...
- Scully e eu...
- O quê...?
- Estou que não me aguento... quero você...!
Dana agarra-se a ele, puxando-o para bem junto de si, com paixão.
"As mulheres, como os sonhos,
não são nunca como imaginamos."
Pirandello