PERDIDA EM DEVANEIOS
"Meus infindos devaneios são somente
pequeninos e benéficos desvarios
que me escapam do coração, porém
a mente é firme e fria!"
Wanilda Vale
Capítulo 217
Mulder permanece por perto, enquanto a atriz atende, simpaticamente, a todos os pedidos de autógrafos.
Ela, vez por outra, estende o olhar na direção dele.
Quase uma hora já se havia passado, enquanto se sucede esse acontecimento.
Enquanto isso, o tempo não faz Mulder esmorecer. Permanece ali. Mãos nos bolsos. Os lábios apertados, formando um bico. O esquadrinhador olhar firmado no alvo do interesse de dezenas de fãs. Apreciando a atraente cena.
A atriz, por fim, decide despedir-se de todos os seus admiradores que ali estão. Quer ir embora. Lança um último olhar na direção de Mulder.
E ele a devora com o olhar. Em seguida a vê afastar-se, ainda acompanhada por insaciáveis fãs e fotógrafos, mais a sua comitiva.
Todo o grupo chega até o carro em que a atriz seguirá para seu destino.
- Gillian! - chama um de seus acompanhantes oficiais - Está havendo um problema com o carro!
- Problema?!
- É, sim! - responde outro - O motor não quer pegar.
- O quê?! Como é que é? Como foi que deixaram acontecer tal coisa? Ninguém checou isso, antes de eu sair?
- Ah, desculpa, foi tudo feito, mas não deu pra perceber o problema.
- Vou no carro do Mathews, então. - decide ela.
- Sim, sim. Tudo bem. Vou avisá-lo.
O homem prepara-se para avisar o outro. Vendo, porém, a aproximação de alguém junto à atriz, estaca os passos, aguardando.
- Posso levá-la no meu carro?
A atriz sente um pequeno tremor. A pergunta viera de chofre, quase junto a seus ouvidos.
- O quê? - ela volta-se para trás e nota o ardente olhar do homem alto, que estivera fitando-a há mais de uma hora.
- Eu perguntei se posso levá-la. - ele repete.
Ela levanta as sobrancelhas. Entreabre os lábios e passa a ponta da língua, levemente sobre eles.
- Obrigada, mas...
- Por favor! - ele insiste.
Ela sorri, retirando uma loura mecha de cabelos da face.
- Não, obrigada... eu...
- A senhorita Gillian vai conosco! - fala um homem idoso, com voz altiva.
A atriz o fita, franzindo o cenho; certamente não aprovando o modo com que o seu acompanhante se dirige ao atraente desconhecido.
- Por favor, senhor, deixe-a! Ela já está indo embora! - fala outro homem dos que acompanham a atriz, já prestando toda a atenção no tal desconhecido.
Gillian ergue a cabeça. Dá um profundo suspiro.
- Aceito sua carona. - diz, sem titubear.
As três palavras pronunciadas por ela foram como um balde de água fria atirado no humor dos dois homens, que lhe estavam fazendo companhia e segurança.
- O que você está dizendo, Gillian? - pergunta o homem idoso.
- É o que resolvi. - ela anuncia, decidida.
Mulder, intimamente, vibra de satisfação.
- Por favor! - faz um gesto cavalheiresco, para que ela o acompanhe.
E Gillian o segue, andando em passos ligeiros em seus sapatos de salto alto.
Todos os seus acompanhantes tratam de entrar em outros veículos e postam-se em alerta para segui-la de perto.
Mulder a ajuda a entrar no carro.
"Interessante! - pensa ele - Eu até estava caminhando, quando cheguei até aqui e, de repente, meu carro está aqui, diante de mim!" - surpreende-se, mentalmente.
Ele olha a chapa do carro que tem à sua disposição nesse momento: DDGA1013.
"Que coisa! Mas essa não é a chapa do meu carro, se bem que a cor e a marca são as mesmas, mas... eu estou com a chave dele em minha mão!...!"
Sem mais pensar, ele abre a porta do veículo e ajuda a atriz a entrar. Após isso, segue para a outra porta para entrar no carro.
Ela está desabotoando e retirando o pesado casaco, quando ele entra.
- Por que ofereceu-se pra me levar? - ela quer saber.
- Sou seu admirador.
- Jura? - dá uma risada - Eu achei que você estava ali, na porta do teatro, apenas por curiosidade.
- As duas coisas. - ele retruca, sorrindo.
Gillian, ao vê-lo sorrir, sente-se fascinada. Abaixa a cabeça, para dizer.
- Você me faz lembrar um amigo...
- É mesmo?
- Sim... eu não o vejo sempre e... - ela pára a conversa e põe-se absorta, perdida em seus devaneios.
Por muitos minutos Mulder observa que seus olhos de intenso azul denotam uma certa tristeza.
- Eu noto que seus olhos parecem querer falar algo. - ele comenta.
- Falar algo?! Como assim?
- Sim; seus sentimentos afloram no olhar. Você é uma mulher triste...
Ela tenta sorrir.
- ... apesar de procurar sempre mostrar nesse seu ar simpático, uma alegria que não existe.
Ela o olha, surpresa com tais palavras.
- Você entende alguma coisa de ... sentimentos?
Ele faz um gesto, denotando simplicidade no que fala:
- Sou psicólogo.
- Ooooh, muito bem! Parabéns por seu esperto diagnóstico!
- Então acertei?
- Um pouquinho...
- Sei. - ele sorri, discretamente.
- Bem... você já me conhece. Agora quero saber seu nome.
- Chame-me de Mulder.
- Mulder?! Mulder...?! - ela dá uma estridente risada.
Ele é surpreendido pela reação dela.
- O que é engraçado?
- É que... - ri, ainda - ... Mulder é o nome de um personagem que, por nove anos, tive que aturar no meu trabalho!
- É mesmo? E o detestava?
- Não... não é bem esse o caso... apenas nós dois já estávamos cansados de desempenhar os mesmos papéis e...
- Cansados, é?
- É sim.
- Mas devem ter ganho um bom dinheiro...!
Ela pára de sorrir. Olhar para a rua. Vê o brilho dos flashes das câmeras dos paparazzi, que não perdem a oportunidade e disparam suas máquinas, incessantemente.
Ele continua:
- Bem, por coincidência, meu nome é Mulder, mas não sou um personagem fictício. - explica, sorridente.
- Claro que não! É bem real! - ela desliza o olhar por sobre todo o corpo dele. Direciona o olhar também para suas mãos, de dedos longos e finos, presas ao volante. Suspira, profundamente.
Mulder põe o motor do carro em movimento. O veículo começa a deslizar, vagarosamente, sobre o asfalto.
Ele olha pelo retrovisor.
- Sabe que dois carros estão nos seguindo de perto? - diz, achando divertido - Acho que estão com medo de que eu lhe sequestre!
Ela não responde. Fica calada por uns instantes. Diz sem fitá-lo.
- E se eu não fosse para o meu apartamento, agora?
- Iria para onde, então?
- Não sei... talvez... talvez um lugar onde pudéssemos conversar mais à vontade.
- Tem certeza?
- Absoluta.
Ele a olha e sorri. Ela também.
Mulder toca as pontas dos dedos em sua mão pequena, de unhas bem pintadas, parecendo desejar sentir a quentura de sua alva pele.
- O que você faz? - ela quer saber.
- Atualmente vivo igual aos peixes.
- Não entendo... é um mergulhador? O que quer dizer?
- O que um peixe faz na água?
- Nada!
- Exatamente.
Agora ela solta mais uma cristalina e prolongada risada, achando-o engraçado.
Ele deixa despontar nos lábios o seu sorriso de menino, para dizer:
- É... mas noutros tempos fui um Agente Federal.
Neste momento Gillian quase dá um pulo no assento do carro.
- Como é que disse? O que você foi?
- Um Agente Federal. Espantou-se?
Ela está completamente surpresa. Boquiaberta.
- Você foi... um Agente Federal?! E chama-se Mulder?! Deixa eu me beliscar, porque não estou acreditando! Só falta eu conhecer a sua...
- ... minha o quê?
Gillian suspira. Abre mais os olhos. Nem sabe o que pensar. Tudo muito surpreendente.
- No seu trabalho você teve uma parceira? - ela resolve indagar.
- Sim.
- Sim?! - está em suspense, agora.
Ele, calmamente, passa a mão pelos cabelos, enquanto segura o volante com a outra.
- Responda, por favor! - ela pede, ansiosa.
- Sim, tive uma parceira. Mas acho que minha conversa só está lhe causando espanto...
- Ah, desculpe, não é bem isso... o negócio é que estou me sentindo como se estivesse dentro das filmagens que eu fazia, sabe? Era uma Série para a TV. - ela reflete e olha para fora; fica entregue a seus pensamentos; decide continuar a conversa - Você já ouviu falar... hãn... no Seriado de TV Arquivo-X? - tamborila, nervosamente os dedos sobre o colo.
Mulder faz um trejeito com a boca, num gesto de descaso.
- Nunca.
- Aah... - ela agora, além de parecer estar num mundo estranho, sente-se frustrada até.
Ambos cessam a conversa.
"Nosso maior prazer neste mundo
são os pensamentos agradáveis."
Michel de Montaigne