temporada.
O apartamento, na calmaria de uma tarde tranquila, reflete a doce paz de seus três moradores.
O leve balanço da cortina, ao sabor da brisa que corre nessa tarde, parece querer dizer da felicidade de poder estar decorando essa moradia, onde existem pessoas que têm todas as virtudes de corações simples e puros.
As confortáveis poltronas parecem convidar seus donos a acomodarem-se em seu aconchegante interior, enquanto o sutil ruído das persianas batendo-se, umas contra as outras, age como se fosse uma voz dizendo da sua alegria por poder servir bem àqueles que se abrigam no lugar.
Tudo parece ter vida ali.
Mulder, de pé, junto à janela, polegares presos ao cinto, está absorto em seus pensamentos, porem, repentinamente, volta-se para falar em voz alta:
- Scully, eu vou até a banca de jornal comprar um, pra ficar POR DENTRO das
notícias, ok?
Do interior do apartamento vem a voz de Dana:
- Sim, Mulder. Eu é que, atualmente ando meio POR FORA de tudo! Falta de tempo...!
- Volto já! - ele diz.
Mulder sai, em passos apressados, batendo a porta inopinadamente, como lhe é habitual.
Dana, ouvindo a batida da porta, balança a cabeça, compreendendo a atitude dele, que é , exatamente, o jeito peculiar de Mulder fazer as coisas.
* * *
Na rua, Mulder compra o jornal na banca. Olha para uma vitrine ao lado.
Belas, viçosas e coloridas flores ali expostas estão, nas mais variadas embalagens.
Ele entra na loja.
Resolvera adquirir um lindo jarro de pé, cheio de flores brancas, para Scully.
A vendedora embala, lindamente, o presente.
Mulder paga a compra, agradece e sai.
Vai direto para casa. Já na porta do apartamento, abre-a e entra, empunhando o lindo embrulho de presente, colocando-o em frente ao seu rosto.
- Scully!! - chama.
- Vem aqui! - ela replica.
- Não posso, agora. Vem você! - Mulder diz isso e pára por alguns segundos – Se não vier até aqui, vai perder a chance de ganhar uma coisa!
- O que? - ela pergunta lá de dentro, sem entender.
- Vou lhe dar uma SEGUNDA CHANCE, Scully! Pra ganhar uma coisa, venha aqui!
Ele fala isso e aguarda. Continua de pé, no meio da sala, segurando o vaso de flores junto ao rosto.
Por vários minutos fica nessa posição.
- Óó Scully!! - chama, novamente.
Dana aparece, ajeitando os cabelos úmidos e meio desarrumados.
- Puxa vida! O que é, Mulder? - olha para ele e o vê naquela atitude engraçada - Aaah, Mulder, que lindas!
- Pois é, e você nem atendeu rápido ao meu chamado.
- PACIÊNCIA, fazer o que? Eu estava ocupada!
- Gostou?
Dana encosta as flores na face.
- Coisa linda! Obrigada, Mulder.
- Só vai me agradecer assim? - diz, fitando-a, com seus olhos esquadrinhadores.
Dana entrega os lábios para que ele a beije.
- Huuum... Mulder... quando você me beija assim, eu corro até RISCO DE VIDA! - fala, grudada a ele.
- Por que, minha doutora?
- Porque meu coração pulsa fora da medida normal.
- Scully, tenho um convite a fazer hoje: o que acha de sairmos até um clube de patinação no gelo?
- Patinação... no gelo? Mulder... que loucura!
- Por que o assombro?! Não tem nada demais!
- Como não tem? Ah, Mulder... nós temos uma criança!
- E o que tem isso, Scully? Não entendi.
- É que nós somos ainda jovens para nos arriscar ficar numa cadeira de rodas, por causa de uma perna quebrada ou outros acidentes que possam acontecer. E nosso filhinho não pode ficar sem nosso amparo.
- Nossa! Que exagerada que você é!! Faça uma grande INVOCAÇÃO a Deus, para que nenhuma VIA NEGATIVA ou caminho mau atravesse nossa vida e vamos em frente! Nada de negativismo, nem pessimismo, Scully!
- Ah, Mulder, você é que está numa verdadeira ENGANAÇÃO consigo mesmo. Eu não estou exagerando, não! Suponhamos que... num modo mais brusco de praticar um esporte, soframos um acidente grave. Seria MORTE CERTA!
- Ah, não diga, Scully...! Nada disso me amedronta; acho que sou um verdadeiro HOMEM DE FERRO, pois tenho O DOM de morrer e reviver.
- Pára com isso, Mulder! Existe um espírito mau, VINGADOR, que sempre nos deseja derrubar a qualquer momento; por isso não é bom falar essas coisas.
- Você acha que falar assim pode atrair azar?
- Não sou supersticiosa, Mulder.
- Tá bom... mas é isso que você está deixando passar...!
- Eu não quero saber de sua opinião, Mulder!
- Está zangada?
- Nem um pouco.
- Duvido.
- Bom, na verdade, eu só quero mesmo, agora, poder cuidar do meu cabelo. Posso?
- E o que tem ele?
- Não está vendo, Mulder? Eu estava começando a me arrumar, quando você me chamou!
Ele suspira.
- Ah, pois é. Procurei agrada-la hoje com flores e é assim que me agradece?
- Assim como?
- Zangada.
- Não estou zangada.
- Então prove.
- Ah, Mulder, não tenho que provar nada. Você fez foi interromper o meu intervalo de beleza.
- O que significa isso?
- Significa que, após cuidar de você e do bebê, tenho que ter os momentos para mim, certo?
- Certo, lindinha. Pode continuar o que estava fazendo.
Dana dirige-se para o quarto.
Diante do espelho dispõe-se, por fim, a reiniciar seus cuidados para com o cabelo.
Após alguns momentos, retorna à sala.
Mulder está assistindo a TV, com olhos semicerrados, braços cruzados sobre o peito e pernas apoiadas na mesinha pegada ao sofá, onde está sentado.
Num ímpeto, ele salta de pé, fingindo horror:
- Credo!! Parece que estou vendo a MEDUSA!!
- Pára Mulder! Que coisa!
- Com esse negócio aí no cabelo, Scully, não dá pra imaginar coisa melhor!
- Ah, não! ISTO NÃO ESTÁ ACONTECENDO! Não acredito! Você está gozando com a minha cara!
- Scully... lindinha... não dá pra pensar noutra coisa... está feio mesmo!
- Tá... mas você vai ter que aguentar me ver assim durante algumas horas.
- Al... gumas ho... ras? Eu não resistirei, Scully.
- Não resistirá a que?
- À sua aparência de Medusa.
- Eu vou te matar, Mulder! - agarra-o com força pelo peito.
- Aaaah... Scully! Eu morro feliz!
- Não pense que eu iria deixa-lo totalmente morto! Iria faze-lo sofrer aos poucos.
- Um MORTO-VIVO, então. – pede em voz murmurante, fazendo correr dezenas de bolinhas de gude por sua garganta - Vai, Scully... lindinha... - segura-a - ... tira esse negócio horrível da cabeça...!
- Por que eu iria atender você?!
- Porque você me ama.
- Hum, não sei não... não tenho tanta certeza.
Mulder continua agarrado a ela.
- Me garante que está falando a verdade?
- Sem dúvida. – sorri.
- Está certa disso? - ele, curvado para alcançar sua estatura pequena, fala com a boca colada aos lábios dela.
- Sim. – mal consegue pronunciar.
Ele, agarrado a ela, leva-lhe o corpo em passos dançantes, como se estivessem a ouvir um tango.
- Scully, você acha que daríamos um bom par de dançarinos de tango?
Mulder solta o corpo de Dana, levanta os braços, movimentando os dedos, como se estivesse empunhando castanholas, numa atitude de dançarino.
- Que tal me acha assim, Scully? Ficaria bem?
Dana olha-o, zombeteira. Cruza os braços. Sorri.
- Mulder, você está fazendo a maior salada. Isso aí é atitude de dançarino espanhol! Nada tem a ver com tango argentino!
Mulder não desiste de sua brincadeira e atitudes de dançarino.
- Y VIENEM las muchachas!
- Nossa, Mulder! - ela ri - De espanhol você não entende nada! Está misturando tudo!
Ele abarca, com seus braços longos, o corpo frágil de Dana e rodopia com ela, pelo aposento.
- Me larga, Mulder! Senão fico tonta!
Ele a larga, segurando-a pelos ombros e fitando-a, com amor.
- Mulder... – murmura ela.
- Fala, lindinha.
- Acho que dei um jeito no pé.
- Deixa eu ver seu tornozelo.
- Tenho que sentar, Mulder! Em pé dói!
- Em pé do cles... - ele pronuncia, vagarosamente.
- O que?
- EMPÉDOCLES. Estou lembrando daquele caso que nós investigamos.
- Ah, sim. O que tem ele?
- Nada. Estou só chegando a conclusão de que devo, ao invés de falar de teorias sobre água, fogo, terra e ar, como fez Empédocles, eu somente quero te dizer uma coisa bem diferente...
- E o que é? - ela sussurra.
- Apenas TRÊS PALAVRAS.
- E quais são? - fita-o, amorosa.
- Eu te amo.
- E depois?
- Arrancar essa tralha de sua cabeça.
Fitando-o, ainda e sustentada pelos braços dele, vagarosamente, vai retirando um a um os bigodins que estão presos aos seus cabelos.
Os ruivos fios de cabelo caem-lhe, desarrumados, sobre a testa.
Despenteada, mas feliz, continua fitando-o, ardorosamente:
- Oi?
- Você é boazinha.
- E você um aproveitador.
- Por que?
- Porque enquanto nossos olhos falam, nossas bocas confirmam as nossas palavras, suas mãos...
- ...?
- ... trabalham o tempo todo no meu corpo.
- Não dá pra resistir a explorar o mistério envolvendo desse corpo...
- ... mistério envolvente...! Gostei!
Ele aperta-a com força contra seu peito e fala, com os lábios pousados em seus desarrumados cabelos.
- Scully...?
- Ahn...?
- Eu quero te dizer também...
- O que?
- Jamais eu aguentaria ficar SOZINHO, outra vez.
- Verdade?
- Verdade, Scully, você é a ESSÊNCIA do meu viver. É razão da minha EXISTÊNCIA!
Dana deixa-se envolver no abraço mais apertado e quente de Mulder.
O choro do bebê é ouvido, vindo do quarto.
Ambos correm para o aposento.
O bebê, agita braços e pernas quando os vê. Em sua boquinha desenha-se um sorriso.
O casal olha, embevecido seu bebê.
- Scully...
- O que, Mulder?
- I MADE THIS.